Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Voar a 10 de Janeiro


A janela fechada, um calor sintético de ar condicionada seca-me a garganta, tenho a sensação que estou fora do meu corpo, mas logo tento agarrar-me e voltar à minha cápsula.
Não sinto dor, nem frio, mas sinto o vazio. O vazio de quem não vislumbra no horizonte a sombra da loucura, mas toca-a como se a conhecesse por dentro.
O pensar em branco depois de meditar, o olhar de quem amamos parece-nos visitar. Quero sair, mas não quero mexer-me, quero sentir, mas não quero tocar, quero pairar no ar e ver os anéis do tempo a fecharem-se no cilindro translúcido que se tornou o acumular de camadas de informação.
Nunca mais verei a vida a zeros e uns, pois o binário não tem sentimentos, a reacção verdadeira trama a razão, mas apraz-me falar com o coração.
Os cães ladram e a caravana passa, eu vejo-os a passar como se o tempo para mim parasse, estarei louco ou doente, mas para mim não são gente. São como os carneiros que os badalos seguem com a tristeza de quem não voa sobre o vazio.
Gosto de voar e sonhar e não acredito na religião serei mais um perdido do pelotão, quando ficava para trás para as esculturas olhei, nunca mais irei falar mal da força que encontrei.
Os meus músculos causam-me dor, mas eu estou a rir. Não estou feliz nem triste apenas existo na escala da minha pequenez. Que me interessa isso se alguém se lembrar de mim, será a minha pequenez um egoísmo?
O opinar do ignorante e o silêncio do sábio, terá o mesmo sentido que o raspar das paredes onde se guarda a nossa existência.
A espuma das ondas sobe na areia enquanto continuo a voar, o meu tempo está parado, por isso vou apreciar o que nunca ninguém tem tempo, porque o pastor ou o cão não deixam olhar.
Não quero uivar para a lua nem para o sol cantar, quero apenas ser feliz sem ter de imitar. Estou farto de fotocópias de baixa qualidade quero plastificar os elementos da verdade.
Sei gostar e sei viver sem nunca deixar de voar, os anéis do tempo vão-se fechando na eternidade, mas o meu coração nunca deixará de falar.
Nunca precisarei de gritar, pois os sentidos de quem como eu anda a voar mesmo noutra dimensão tudo irão sonhar.

Miguel Gonçalves (2007)

A noite


Ao cair da noite, sinto uma ligeira picada na cervical, por passar muitas horas sentado em frente ao computador. A televisão está num canal de desporto, mas nem ligo ao que se passa. Reparo pela janela, na vivenda devoluta, eternamente à espera de comprador que a pague, e o calor vai penetrando no meu quarto. Os cães ladram, porque uma pessoa passa na rua, e, talvez o cheiro a álcool incomode o olfacto mais apurado dos animais. As copas dos pinheiros não mexem, a lua está cheia, o meu coração vazio.
A frieza de alguém que me telefona após uma briga com o seu namorado, ainda me consegue entreter por momentos e deixar-me um nó na garganta depois.
Fiquei a saber que o amor não existe, o que existe é um determinado contexto, num determinado período de tempo, onde as pessoas, por estarem perto e arranjarem tempo, umas para as outras, dizem que se amam.
Todas as simbioses que se sentem nesses momentos, são ridicularizadas depois, e com o tempo é como se nunca tivesse passado nada.
Será que após esses acontecimentos, as pessoas vão sair com os amigos, vão para festas, trabalham que nem cães e naqueles 20 segundos de paragem antes de entrarem para a cama, sentir-se-ão realizadas, ou sentirão serem umas marionetas manipuladas no sentido do correr dos rios e alimentadas de forma intra venosa.

Miguel Gonçalves (2005)

A cabana


Uma casa de madeira envernizada sobre as dunas da praia a cerca de 100 metros da linha de costa, o cheiro da brisa marinha inundava os meus sentidos. As traseiras da casa davam para o mar, onde se situava um grande alpendre, com entrada através das portas envidraçadas de correr do quarto.
O alpendre tinha dois degraus que acediam directamente à areia, onde eu gostava de me sentar descalço no segundo degrau a sentir a areia entre os dedos dos pés.
O dia era de Outono mas não muito frio e o sol descia sobre o mar em tons avermelhados, uma brisa fresca começava a correr ao mesmo tempo que o sol descia. Estava a beber um chá quente enquanto escutava a música que tinha posto a tocar no rádio do quarto. Tinha vestido uma camisola quente e confortável, o turbilhão de pensamentos que normalmente invade a minha cabeça tinha evaporado e eu sentia-me em paz e calmo.
Ouvi a porta do quarto correr e os teus suaves passos vinham na minha direcção. Baixaste-te e deste-me um abraço, enquanto sentia a vibração do teu respirar junto do meu ouvido, partilhei contigo aquele momento e nunca mais dele me irei esquecer.
Ás vezes as pequenas coisas fazem muito sentido quando a companhia é a ideal, porque o amor existe, por muito que a ideia contrária nos seja imposta.

Miguel Gonçalves (2001)